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A escolha da profissão
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Tempos atrás, a definição da profissão que a pessoa iria
seguir se dava a partir da família, de forma quase completa
e irreversível.
Artesão que tecia gerava filhos tecelões. Essa época não
produzia as “incertezas” que assaltam tão freqüentemente os
nossos jovens chamados a decidir, eles próprios, quanto ao
seu futuro profissional. Há muitas gradações entre o passado
em sua rigidez corporativista, quando ate os nomes de
família indicavam profissões (Taylor, Brickman etc), e o
presente tão aberto à livre escolha.
Já foi muito comum a decisão pela carreira ser ditada pela
voz paterna. Aqui não se trata mais da profissão atada à
árvore genealógica da pessoa, mas é ainda a autoridade que
impõe a escolha. Embora cm menor freqüência, essa forma de
“escolha” ainda ocorre.
O fato de a profissão ser herdada ou imposta, entretanto,
não implica pessoas infelizes ou profissionalmente
deficientes. Pode ocorrer ate mesmo o oposto. O professor
Euryclides de Jesus Zerbini seguiu Medicina contra suas
inclinações pessoais de juventude e apenas por exigência de
seu pai.
A liberdade com que a escolha da carreira é feita atualmente
não decorre de uma simples mudança na severidade dos
costumes. Simplesmente a organização social e econômica
adquiriu tamanha complexidade que os velhos padrões que
definiam tão rigidamente o futuro dos jovens não
sobreviveram. Basta observar o grande numero de profissões
que surgem e que seriam impensáveis há apenas alguns anos.
Que optaria por ser Analista de Sistemas nas gerações
passadas? E que tal Engenharia Mecatrônica? Jornalismo de
radio e TV? Especialista em Genética Molecular?
Novas necessidades abriram um grande numero de novas
oportunidades profissionais. Mas novas e diversificadas
opções criam dúvidas. Há muitos caminhos que podem ser
seguidos e, normalmente, apenas um devera ser o escolhido
para ser trilhado. Aí reside parte da incerteza dos jovens
atuais.
Vamos nos ater ao caso especifico daqueles que pretendem
seguir uma carreira de nível superior. No Brasil eles formam
uma reduzida minoria, composta pelos poucos
(percentualmente) que conseguem completar o 2º grau. A
chegada ao final do 2º grau é quase sempre acompanhada de
indagações do tipo:
“ – Será que eu tenho base para entrar nessa faculdade?”; “-
Devo fazer um teste vocacional?”; “- Que faculdade devo
seguir?”; “- Será melhor fazer Exatas, Humanas ou
Biológicas?”; - Esta carreira tem mercado de trabalho?”; “-
E se eu escolher o curso errado?“.
Nenhuma dessas perguntas deve ser tratada com descuido ou
desprezo.
Elas refletem preocupações autênticas. O futuro de uma
pessoa tem muito a ver com algumas decisões cruciais que ela
toma; e uma é a escolha da carreira.
Formação Geral
Há pouco mais de uma dezena de nãos, os jovens tinham de
apressar sua escolha profissional. Ao sair do 1º grau, já
deviam ter uma idéia bem definida do curso superior que
pretenderiam seguir. O 2º grau separava-se em áreas bem
distintas, correspondendo a um vestibular altamente
especializado. A decisão de um estudante aos 13, 14 anos
levava-o a um tipo especifico de 2º grau que praticamente
acabava excluindo a possibilidade de que ele viesse
eventualmente a mudar seu enfoque profissional para outra
área.
Hoje, um estudante que faça um bom 2º grau deve receber uma
formação geral, completa no conjunto das disciplinas
obrigatório no vestibular. Essa formação, não mais se
restringindo a essa ou aquela área, deixa de gerar
limitações à liberdade de escolha da carreira. Para se
entrar numa faculdade, atualmente, há um amplo programa que
não se atém mais aquelas poucas matérias estritamente
voltadas à opção profissional. Agora sem a especialização
precoce que havia, a carreira pode ser escolhida aos 16, 17
anos e o estudante tem a vantagem adicional de poder receber
uma base mais ampla, mais adequada ao mundo moderno.
“Vocação”
Existe um ponto muito controvertido ligado à escolha de
carreira. Trata-se da discussão quanto à existência de algo
como as denominadas “vocações”, que pressupõem a existência
nos indivíduos de uma certa inclinação para algumas
carreiras. Hoje se questiona muito se tais vocações existem.
O teste vocacional é uma decorrência da crença em que casa
pessoa tende a dar mais certo numa determinada carreira,
aliada à idéia de que essa tendência pode ser avaliada
através de alguns testes. No mínimo este é um empreendimento
de altíssimo risco por que, alem de se valer de princípios
cientificamente duvidosos, apresenta a enorme presunção de
poder ditar o que uma pessoa tem ou não aptidão parar fazer.
Certamente diferentes ocupações envolvem diferentes
exigências quanto à formação. Exigem ate mesmo diferentes
temperamentos. Mas não podemos esquecer que em cada carreira
existem subtipos de trabalho muito variados: por isso numa
mesma profissão há lugar para quem deseja algo mais
reservado, mais introspectivo, como há também espaço para
quem é mais extrovertido e gosta de manter amplo contato com
pessoas. Como podemos pré julgar para onde deve ir alguém?
Entretanto não se deve confundir o teste “vocacional” com a
orientação profissional. O teste “vocacional”supõe haver
limites inerentes a cada pessoa e pode gerar perigosos
preconceitos. A orientação profissional apenas procura
mostrar quais as diferentes ocupações profissional
existentes, informando o que se faz em cada atividade
humana.
A “orientação profissional” pode ser obtida de vários modos.
Algumas instituições, como a USP, por exemplo, tem um
programa de visitas às suas diversas unidades que permitem
conhecer o que se estuda nas escolas, quais as
especialidades que existem e onde se pode trabalhar ao sair
da universidade. Para os interessados em conhecer quais são
as profissões há também informações em publicações
especializadas, há escolas que oferecem palestras de
divulgação. E uma excelente forma de orientação profissional
é conversar com pessoas que já atuam em áreas que se deseja
conhecer.
Embora não exista um caminho que garanta carreira que se
escolhe um futuro certo e promissor, podemos fazer opções
cuidadosas. Principalmente, podemos lutar para que nosso
futuro seja o melhor possível. Mais do que de nossa escolha,
é de nosso esforço que depende esse futuro.
Mercado de trabalho
Quem está preocupado com uma profissão naturalmente deseja
saber em que circunstâncias irá exercer sua ocupação. Será
um trabalho respeitado? Será bem remunerado? Em que ambiente
será exercido?
As questões acima podem ser parcialmente vistas a partir de
uma análise da situação atual. O interessado em Engenharia
pode ver, por exemplo, como está hoje o engenheiro, quem
está oferecendo empregos a ele, qual o seu salário, quais as
perspectivas de evoluir na carreira, em quais modalidades há
maior procura etc. Entretanto, isto não significa saber o
que haverá,nessa carreia, daqui a cinco, seis, dez anos.
Nesse período o mercado de trabalho muda todo, a própria
sociedade passa por grandes transformações, o mundo inteiro
se altera.
Veja que em apenas seis anos, de 1986 para cá, os jovens no
Brasil passaram por uma fase de enorme crença no futuro e
estão agora numa fase difícil, em que as coisas parecem
caminhar lentamente quando não para trás. Isso, ao contrario
de ser motivo para desesperança, deve fazer o estudante se
acautelar contra os pessimistas, contra aqueles que só se
sentem bem-sucedidos quando profetas dos dias piores, que só
florescem quando as coisas não estão bem, mas que são
varridos quando novos ares passam a soprar.
Quem Luta para se tornar um profissional competente não deve
achar nada estranho conseguir sucesso, independente da
escolha que tenha feito. Já quem trata displicentemente sua
formação, quem age com desânimo e só espera soluções
prontas, não se surpreenderá se não conseguir se adaptar sua
carreira, por melhor que ache que foi sua escolha. O mercado
de trabalho não é apenas algo que está pronto, à espera
daqueles que vão ocupá-lo. O empreendimento humano uma
constante união entre o coletivo e individual. Um país com
pessoas bem formadas, dispostas, que querem melhorar sua
própria situação e dos demais, cria oportunidades, tem
presentes e futuro.
E, se há algo que realmente pode dizer muito pouco para quem
vai fazer sua escolha profissional hoje, esse algo é a
situação atual do mercado de trabalho no Brasil.
Escolhas Erradas
Uma grande preocupação de quem faz uma escolha é estar
deixando de lado uma “boa” carreira, acabando por ficar com
curso “errado”. O que seria “errado” nesse caso? Descobrir
na faculdade que precisa estudar matérias de que não gosta?
Não adaptar ao ambiente que encontra no curso superior? Na
verdade, escolhas “erradas” são bem fáceis de superar. Ao
entrar num certo curso superior ninguém estabelece uma
ligação definitiva e indissolúvel. Pode se perfeitamente
mudar de idéia e prestar vestibular para outro curso, com o
qual sinta maior afinidade. O fato de com isso retardar em
um ano a saída do curso superior não pode ter tido como
“perder um ano”. Encontrar um curso no qual realmente sinta
bem é ganhar uma vida toda.
Se por um lado é fácil mudar de carreira seu inicio, por
outro essa decisão exige cautela. É comum confundir
desânimos passageiros e circunstanciais no começo do curso
superior com problemas mais sérios. Antes de desistir de um
caminho é preciso realmente ter certeza de que ele não é
interessante. O inicio da faculdade costuma ser muito básico
e não revela o potencial nem os pontos mais interessantes da
carreira. Por isso, cuidado com as primeiras impressões.
Voltemos ao professor Zerbini, que queria ser arquiteto e se
tornou medico por força de decisão paterna. Conta ele que no
inicio do curso pensou seriamente em desistir, mas nas aulas
de anatomia encontrou uma nova paixão. O resultado foi um
dos maiores cirurgiões da historia de medicina do país.
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